I
DOMINGO DA QUARESMA
|
Temas
de
fundo |
1ª leitura (Gn 9,8-15): Deus disse a Noé e aos seus filhos: «Vou fazer a minha aliança convosco, com a vossa descendência, com todos os seres vivos, todas as aves e animais, tudo o que saiu convosco da arca. Estabeleço convosco esta aliança com as seguintes palavras: nunca mais criatura alguma será exterminada pelas águas do dilúvio; não haverá jamais outro dilúvio para destruir a terra. Como sinal desta aliança que faço convosco, com todos os seres vivos que vos rodeiam e com as demais gerações futuras, coloco o meu arco nas nuvens. Este será o sinal da aliança entre mim e a terra. Sempre que cobrir a terra de nuvens e aparecer o arco nas nuvens, recordar-me-ei da aliança que firmei convosco e com todos os seres vivos da terra. E as águas do dilúvio não voltarão mais a destruir nenhuma criatura.
* A libertação do mal. Purificada pelas águas do dilúvio, nasce uma humanidade nova, graças à força e poder de Deus. Símbolo dessa fidelidade é Noé, que corresponde à confiança que Deus nele deposita. Como sucedeu no início da humanidade, Deus põe constantemente as bases para uma nova aliança, não obstante a infidelidade dos homens. Sabemos, pela «história da salvação», que o homem em geral, e o povo de Deus em particular, caracteriza a sua conduta pela rejeição constante. Mas não é menos certo que Deus, apesar disso tudo, nunca desiste do seu plano em relação à humanidade. De vez em quando, será preciso que a água purificadora dos dilúvios lave a humanidade do pecado e do mal, mas a verdade é que não é intenção de Deus destruir as criaturas. Esta leitura do Génesis pode ser, pois, também vista como uma espécie de «prova» de que Deus, mesmo após momentos em que a humanidade se perde por completo, como que arranja sempre maneira de fazer com que, da fé e da persistência dum «resto», ela seja restituída à vida.
PARA ULTERIOR APROFUNDAMENTO, VEJA EM BAIXO.
2ª leitura (1Pe 3,18-22): Cristo morreu pelos pecados de uma vez para sempre, o Justo pelos injustos, para nos conduzir para Deus. Ele morreu fisicamente, mas foi vivificado no espírito. Na sua existência espiritual, foi então pregar também aos espíritos cativos; aos incrédulos que não obedeceram outrora a Deus, quando Ele esperou com paciência, no tempo de Noé, quando se construía a arca. As poucas pessoas na arca – oito apenas – salvaram-se graças à água, que era uma figura do baptismo, que agora vos salva. Não se trata de limpar impurezas do corpo, mas do compromisso com Deus por parte de uma boa consciência. Ela (a água) salva-vos graças à ressurreição de Jesus Cristo, que subiu ao céu e está sentado à direita de Deus, reinando sobre os Anjos, as Dominações e as Potestades.
* Salvos pela água em Jesus. Uma das intenções desta primeira Carta de S. Pedro é exortar os fiéis a manterem-se fiéis a Jesus, não obstante as dificuldades e as perseguições de que são alvo na altura em que ele se lhes dirige. No contexto desta liturgia da palavra, este texto terá sido colocado aqui por fazer referência ao dilúvio e a Noé, de que fala a primeira leitura. Mas o autor vai muito mais além desse dado. É-me difícil saber o que ele quer dizer quando afirma que Jesus, na sua existência espiritual, foi pregar aos espíritos cativos. Agora, o que se me oferece sugerir é que ele faz uma referência implícita ao facto de a salvação não ser apenas um «fenómeno» localizado, mas sim um evento universal, desde os tempos de Noé. E isso realiza-se graças ao poder salvífico da água do baptismo cuja força advém da ressurreição de Jesus. É o viver os compromissos do baptismo que dá direito, digamos assim, à salvação. Daí a importância de, neste tempo especial da Quaresma, se insistir tanto no tema do baptismo e dos seus compromissos.
PARA ULTERIOR APROFUNDAMENTO, VEJA EM BAIXO.
Evangelho (Mc 1,12-15): O Espírito impeliu-o para o deserto, onde ficou quarenta dias e onde foi tentado por Satanás. Havia também aí feras, mas os anjos serviam-no. Depois de João ter sido preso, Jesus foi para a Galileia proclamar o Evangelho de Deus: «Completou-se o tempo e o Reino de Deus está perto. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho».
* Arrependei-vos e acreditai. A figura e a pessoa de Jesus durante 40 dias no deserto (o número 40 está a simbolizar um tempo longo de preparação para um evento importante, como o é o início da vida pública), bem como as tentações a que é sujeito, além da sua mensagem inicial - «arrependei-vos e acreditai no Evangelho» - marcam o sentido deste de grande «retiro» em que entra o povo cristão no período da Quaresma. O segundo evangelista (S. Marcos) não descreve de forma pormenorizada o conteúdo e a forma das várias tentações (como faz, por exemplo, o evangelista S. Mateus), talvez porque não seja isso o que mais lhe interessa transmitir aos seus cristãos. Ele pretende dar ênfase é à necessidade de mudar de vida e de acreditar na Boa Nova. Mudar de vida e acreditar na Boa Nova não pode nem deve ser certamente uma coisa impossível. Dá a impressão é que, ao fazer este anúncio de conversão e de convite às pessoas que O escutam, Jesus não está, como é evidente, a pretender que todos tomem a decisão de se fazer monges e eremitas. De resto, tenho a certeza de que a primeira e a grande conversão que Ele pede a todos é a de pôr a Deus em primeiro lugar na nossa vida, procurando agir em conformidade com isso. Por outras palavras, a nossa grande conversão é tomar realmente consciência de que somos filhos de Deus. Isso será com certeza a maior «boa nova» que alguma vez podemos receber e o grande motivo para mudar completamente de vida.
PARA
ULTERIOR APROFUNDAMENTO, VEJA EM BAIXO. |
|
* Aliança com Noé libertado das
águas do
dilúvio. * A arca
é figura do
baptismo que
salva. * Jesus,
tentado por
Satanás,
é servido pelos
anjos
de Deus. |
|
|
ACREDITAI NO EVANGELHO. |
Entrou de moda, há alguns anos, o termo «reflexão», até nos círculos assim
chamados laicos (que, por coincidência, abundam sobretudo nos países
tradicionalmente cristãos). Por tudo e por nada, lá se vai desencantar essa
palavra. Mas, pensando bem, não é nada de estranhar que, em ambientes moldados
por uma cultura que, quer queiram quer não, afunda as raízes no húmus cristão,
se usem expressões ricas de humanidade e interioridade.
Ser-me-á certamente permitido também utilizar o mesmo termo. Pois bem, a vigília dum grande acontecimento costuma ser assinalada por um tempo mais ou menos prolongado de reflexão e de preparação, conforme o acontecimento é mais ou menos importante. É como que um recolher-se em si mesmo (afinal, é esse o sentido à letra do termo reflexão). Há que criar um ambiente de reflexão para se lançar, por assim dizer, com mais ardor, numa vida nova. Só procedendo a essa operação de «atestação» das próprias virtualidades é que é possível enfrentar as incógnitas, as hesitações e as incertezas do futuro.
Há certos momentos marcantes da vida que implicam (ou que, pelo menos, deveriam implicar) mudança de mentalidade e de vida, ou conversão. O baptismo dum adulto, por exemplo, comporta esta radicalidade: uma mudança de mentalidade, de hábitos, de atitudes; e sobretudo a mudança de centro de interesses. Começa, com efeito, uma vida que bem se pode considerar nova. É por isso que a opção do baptizando adulto tem que ser muito bem pensada e, se calhar, é também por isso que esses baptizados geralmente levam mais a sério os compromissos assumidos de modo mais consciente.
Análoga deveria ser a experiência do matrimónio. Não é, porém, isso que acontece. De qualquer forma, não se pode ir para o casamento, como se vai com frequência: de ânimo leve. Infelizmente, é o que se vê por aí com demasiada frequência. Não é de admirar que, por isso mesmo, as consequências sejam aquilo que a gente sabe. O mesmo tipo de seriedade e compromisso se deve assinalar em relação ao tema da consagração na vida sacerdotal ou religiosa.
Estas são opções de vida que comportam necessariamente uma mudança, um novo rumo. Nem sequer estou a dizer que essa mudança significa renunciar a algo de negativo. Não, trata-se só de calcular as consequências e os riscos que uma nova situação comporta e agir em conformidade. Mais nada! Mas isso exige uma aturada reflexão, de tal modo que o desconhecido e as incertezas do futuro se não transformem em obstáculos intransponíveis. Fazer uma certa opção é sempre proceder a uma conversão; ou seja, a uma mudança de rumo e a uma escolha.
Em termos absolutos, Jesus não precisava deste tempo de reflexão, mas, como homem, em tudo igual aos outros excepto no pecado, também foi inspirado a retirar-se para o deserto a fim de se preparar proximamente para a sua missão. Nesse sentido, também Ele deixou atrás de si hábitos quotidianos, ditados por um ritmo de vida calmo em Nazaré, os laços familiares e as amizades da infância e da juventude, para seguir uma estrada que o levará até à Páscoa, num crescendo que não conhece paragens.
Também a liturgia de hoje nos interpela duma forma que nos faz pensar: «O Reino de Deus está próximo». Esta frase teve um tal impacto que impressionou vivamente todos os que ouviram Jesus pronunciá-la. Por isso, é necessário estar preparado para mudar de rumo de vida. E certamente Jesus não diz isto só por dizer. Ele propõe realmente uma mudança completa de rumo.
Mas para Jesus, mudança não é só e sobretudo a prática - mais ou menos rigorosa - de algumas normas legais, de exterioridades ou ritos. Isso é apenas uma consequência. A mudança é, em vez disso, uma atitude que diz respeito a «todo» o homem; ou, melhor dizendo, ao homem «todo»: não apenas como renúncia ao pecado (o que, em teoria, até aceitamos com bastante facilidade), mas sobretudo como opção, na teoria e na prática, por uma nova orientação para o futuro. Isto já é mais radical e comprometedor. Fazer uns sacrifícios ou uma renúncias pode ser até fácil de pôr em prática. Ora, não é nada raro que a conversão autêntica implique também uma crise de fé, da qual se sai ou derrotado ou então mais fortalecido com uma profunda e sentida experiência de Deus.
A proposta de Jesus pode ser tão radical que eventualmente se pode ficar com a impressão de que Ele nos quer sós contra todos. Mas, mesmo a custo de desafiar o ridículo de construir uma arca, «quando nem sequer um floco de nuvem se desenha no horizonte», não há outra alternativa que não seja a de deixar tudo para trás para seguir os planos de Deus e construir uma humanidade nova. Ora bem, o que acabo de dizer continuará a ser apenas um amontoado de palavras, mais ou menos bonitas, enquanto não se traduzir numa mudança de mentalidade, de maneira de ver. Noé (1ª leitura) fez o que fez contra a opinião e apesar da ridicularização de todos, porque a visão que ele tinha das coisas era totalmente diferente da dos outros. Ele via a realidade sob uma outra perspectiva. É esse o princípio básico e indispensável da conversão.
Custa-me estar a dizê-lo e a repeti-lo - e faço-o, em primeiro lugar, contra mim próprio - mas, diante do mal, mesmo daquilo a que podemos chamar mal social, as soluções parciais não bastam. Os retoques superficiais podem dar a impressão de que tudo está em ordem, mas isso não é senão aparência. Isso é como que compendiado pelo que se costuma dizer: «mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma». E isto vale também no campo espiritual; ou, se calhar, mais ainda no campo espiritual. Não é aceitável, bem vistas as coisas, uma espécie de reformismo e «barrela» que nos dá a ilusão da mudança, mas que acaba por deixar intacta a raiz do mal.
O convite de João Baptista à conversão (melhor, em última análise, o convite de Cristo) é um convite à conversão total. Não se trata apenas de retocar qualquer coisa na nossa vida, mas, sim, de operar uma viragem de mentalidade, uma mudança de quadro de referências e valores, de opções fundamentais. E isso não só em teoria, mas através da prática da vida.
Há quem acredite nos mitos da violência e do ódio, há quem acredite nos mitos da publicidade e do factor económico para a solução dos problemas da humanidade. E, na verdade, é isso o que nos querem vender os chamados meios de comunicação social. Nós temos é que acreditar na certeza de que é Cristo a solução e que Ele é o único que pode salvar, porque só Ele é Filho de Deus.
A Quaresma convida-nos a acreditar no Evangelho (de Cristo); ou seja, a libertar-nos de todos os ídolos e mitologias. Numa palavra, convida-nos a dar uma confiança incondicional e a fazer uma aposta absoluta em Jesus Cristo. Como escrevi acima, as pequenas mudanças ou pequenos sacrifícios e mortificações não têm muito sentido sem essa aposta em Jesus Cristo. É por isso que ao convite à conversão («convertei-vos») se segue logo um outro convite que lhe está associado: «acreditai no Evangelho».
Essa «consignação» da própria maneira de ser e de ver a vida não é uma coisa fácil. Com muita frequência, falta-nos o fôlego e a coragem, porque, parafraseando o texto de Isaías, «os caminhos dele não são os nossos caminhos» (cf. Is 55,8). Falta-nos o fôlego porque o caminho que temos a seguir nos leva necessariamente ao calvário e à cruz, pois sem isso não há Páscoa. Nós queremos Páscoa e Tabor sem Calvário, mas isso é impossível, pois quem não toma a sua cruz não é digno do Mestre. Estas expressões, como é evidente, não são só para figurar nos Evangelhos. Quando pensamos um pouco mais a sério, falta-nos o fôlego, mas é precisamente nessas circunstâncias que aparece o Cireneu por excelência, que nos ajuda na caminhada. É só a caminhada lenta e dolorosa para o Calvário que produz a conversão.
Pensar em conversões rápidas, de improviso e espectaculares e pensar sobretudo
que, com elas, tudo fica resolvido automaticamente, é uma ilusão. Por outro
lado, a santidade não é apenas uma questão de pequenos ritos e pequenos (ou
grandes) sacrifícios numa determinada altura do ano (seja ela qual for). Pensar
que seja assim, é não querer mudar absolutamente nada. A caminhada para o Calvário
é uma constante da vida, é qualquer coisa que tem que se realizar todos os
dias. Mais: as opções
fundamentais da vida que se fazem são pura e simplesmente o ponto de partida, não
o ponto de chegada. São, por outras palavras, a descoberta duma direcção,
duma meta que é preciso atingir. Mas, para chegar a essa meta, necessário se
torna seguir determinadas estradas, diferentes das anteriores, porque outro género
de estradas não conduz lá. É isso a conversão.
MENSAGEM DE
SUA SANTIDADE
PAPA BENTO XVI
PARA A QUARESMA DE 2012
«Prestemos atenção
uns aos outros, para nos estimularmos
ao amor e às boas obras» (Hb
10, 24)
Irmãos e irmãs!
A Quaresma oferece-nos a oportunidade de reflectir mais uma vez sobre o cerne da vida cristã: o amor. Com efeito este é um tempo propício para renovarmos, com a ajuda da Palavra de Deus e dos Sacramentos, o nosso caminho pessoal e comunitário de fé. Trata-se de um percurso marcado pela oração e a partilha, pelo silêncio e o jejum, com a esperança de viver a alegria pascal.
Desejo, este ano, propor alguns pensamentos inspirados num breve texto bíblico tirado da Carta aos Hebreus: «Prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras» (10, 24). Esta frase aparece inserida numa passagem onde o escritor sagrado exorta a ter confiança em Jesus Cristo como Sumo-Sacerdote, que nos obteve o perdão e o acesso a Deus. O fruto do acolhimento de Cristo é uma vida edificada segundo as três virtudes teologais: trata-se de nos aproximarmos do Senhor «com um coração sincero, com a plena segurança da fé» (v. 22), de conservarmos firmemente «a profissão da nossa esperança» (v. 23), numa solicitude constante por praticar, juntamente com os irmãos, «o amor e as boas obras» (v. 24). Na passagem em questão afirma-se também que é importante, para apoiar esta conduta evangélica, participar nos encontros litúrgicos e na oração da comunidade, com os olhos fixos na meta escatológica: a plena comunhão em Deus (v. 25). Detenho-me no versículo 24, que, em poucas palavras, oferece um ensinamento precioso e sempre actual sobre três aspectos da vida cristã: prestar atenção ao outro, a reciprocidade e a santidade pessoal.
1. «Prestemos atenção»: a responsabilidade pelo irmão.
O primeiro elemento é o convite a «prestar atenção»: o verbo grego usado é katanoein, que significa observar bem, estar atento, olhar conscienciosamente, dar-se conta de uma realidade. Encontramo-lo no Evangelho, quando Jesus convida os discípulos a «observar» as aves do céu, que não se preocupam com o alimento e todavia são objecto de solícita e cuidadosa Providência divina (cf. Lc 12, 24), e a «dar-se conta» da trave que têm na própria vista antes de reparar no argueiro que está na vista do irmão (cf. Lc 6, 41). Encontramos o referido verbo também noutro trecho da mesma Carta aos Hebreus, quando convida a «considerar Jesus» (3, 1) como o Apóstolo e o Sumo Sacerdote da nossa fé. Por conseguinte o verbo, que aparece na abertura da nossa exortação, convida a fixar o olhar no outro, a começar por Jesus, e a estar atentos uns aos outros, a não se mostrar alheio e indiferente ao destino dos irmãos. Mas, com frequência, prevalece a atitude contrária: a indiferença, o desinteresse, que nascem do egoísmo, mascarado por uma aparência de respeito pela «esfera privada». Também hoje ressoa, com vigor, a voz do Senhor que chama cada um de nós a cuidar do outro. Também hoje Deus nos pede para sermos o «guarda» dos nossos irmãos (cf. Gn 4, 9), para estabelecermos relações caracterizadas por recíproca solicitude, pela atenção ao bem do outro e a todo o seu bem. O grande mandamento do amor ao próximo exige e incita a consciência a sentir-se responsável por quem, como eu, é criatura e filho de Deus: o facto de sermos irmãos em humanidade e, em muitos casos, também na fé deve levar-nos a ver no outro um verdadeiro alter-ego, infinitamente amado pelo Senhor. Se cultivarmos este olhar de fraternidade, brotarão naturalmente do nosso coração a solidariedade, a justiça, bem como a misericórdia e a compaixão. O Servo de Deus Paulo VI afirmava que o mundo actual sofre sobretudo de falta de fraternidade: «O mundo está doente. O seu mal reside mais na crise de fraternidade entre os homens e entre os povos, do que na esterilização ou no monopólio, que alguns fazem, dos recursos do universo» (Carta enc. Populorum progressio, 66).
A atenção ao outro inclui que se deseje, para ele ou para ela, o bem sob todos os seus aspectos: físico, moral e espiritual. Parece que a cultura contemporânea perdeu o sentido do bem e do mal, sendo necessário reafirmar com vigor que o bem existe e vence, porque Deus é «bom e faz o bem» (Sl 119/118, 68). O bem é aquilo que suscita, protege e promove a vida, a fraternidade e a comunhão. Assim a responsabilidade pelo próximo significa querer e favorecer o bem do outro, desejando que também ele se abra à lógica do bem; interessar-se pelo irmão quer dizer abrir os olhos às suas necessidades. A Sagrada Escritura adverte contra o perigo de ter o coração endurecido por uma espécie de «anestesia espiritual», que nos torna cegos aos sofrimentos alheios. O evangelista Lucas narra duas parábolas de Jesus, nas quais são indicados dois exemplos desta situação que se pode criar no coração do homem. Na parábola do bom Samaritano, o sacerdote e o levita, com indiferença, «passam ao largo» do homem assaltado e espancado pelos salteadores (cf. Lc 10, 30-32), e, na do rico avarento, um homem saciado de bens não se dá conta da condição do pobre Lázaro que morre de fome à sua porta (cf. Lc 16, 19). Em ambos os casos, deparamo-nos com o contrário de «prestar atenção», de olhar com amor e compaixão. O que é que impede este olhar feito de humanidade e de carinho pelo irmão? Com frequência, é a riqueza material e a saciedade, mas pode ser também o antepor a tudo os nossos interesses e preocupações próprias. Sempre devemos ser capazes de «ter misericórdia» por quem sofre; o nosso coração nunca deve estar tão absorvido pelas nossas coisas e problemas que fique surdo ao brado do pobre. Diversamente, a humildade de coração e a experiência pessoal do sofrimento podem, precisamente, revelar-se fonte de um despertar interior para a compaixão e a empatia: «O justo conhece a causa dos pobres, porém o ímpio não o compreende» (Prov 29, 7). Deste modo entende-se a bem-aventurança «dos que choram» (Mt 5, 4), isto é, de quantos são capazes de sair de si mesmos porque se comoveram com o sofrimento alheio. O encontro com o outro e a abertura do coração às suas necessidades são ocasião de salvação e de bem-aventurança.
O facto de «prestar atenção» ao irmão inclui, igualmente, a solicitude pelo seu bem espiritual. E aqui desejo recordar um aspecto da vida cristã que me parece esquecido: a correcção fraterna, tendo em vista a salvação eterna. De forma geral, hoje é-se muito sensível ao tema do cuidado e do amor que visa o bem físico e material dos outros, mas quase não se fala da responsabilidade espiritual pelos irmãos. Na Igreja dos primeiros tempos não era assim, como não o é nas comunidades verdadeiramente maduras na fé, nas quais se tem a peito não só a saúde corporal do irmão, mas também a da sua alma tendo em vista o seu destino derradeiro. Lemos na Sagrada Escritura: «Repreende o sábio e ele te amará. Dá conselhos ao sábio e ele tornar-se-á ainda mais sábio, ensina o justo e ele aumentará o seu saber» (Prov 9, 8-9). O próprio Cristo manda repreender o irmão que cometeu um pecado (cf. Mt 18, 15). O verbo usado para exprimir a correcção fraterna – elenchein – é o mesmo que indica a missão profética, própria dos cristãos, de denunciar uma geração que se faz condescendente com o mal (cf. Ef 5, 11). A tradição da Igreja enumera entre as obras espirituais de misericórdia a de «corrigir os que erram». É importante recuperar esta dimensão do amor cristão. Não devemos ficar calados diante do mal. Penso aqui na atitude daqueles cristãos que preferem, por respeito humano ou mera comodidade, adequar-se à mentalidade comum em vez de alertar os próprios irmãos contra modos de pensar e agir que contradizem a verdade e não seguem o caminho do bem. Entretanto a advertência cristã nunca há-de ser animada por espírito de condenação ou censura; é sempre movida pelo amor e a misericórdia e brota duma verdadeira solicitude pelo bem do irmão. Diz o apóstolo Paulo: «Se porventura um homem for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi essa pessoa com espírito de mansidão, e tu olha para ti próprio, não estejas também tu a ser tentado» (Gl 6, 1). Neste nosso mundo impregnado de individualismo, é necessário redescobrir a importância da correcção fraterna, para caminharmos juntos para a santidade. É que «sete vezes cai o justo» (Prov 24, 16) – diz a Escritura –, e todos nós somos frágeis e imperfeitos (cf. 1Jo 1, 8). Por isso, é um grande serviço ajudar, e deixar-se ajudar, a ler com verdade dentro de si mesmo, para melhorar a própria vida e seguir mais rectamente o caminho do Senhor. Há sempre necessidade de um olhar que ama e corrige, que conhece e reconhece, que discerne e perdoa (cf. Lc 22, 61), como fez, e faz, Deus com cada um de nós.
2. «Uns aos outros»: o dom da reciprocidade.
O facto de sermos o «guarda» dos outros contrasta com uma mentalidade que, reduzindo a vida unicamente à dimensão terrena, deixa de a considerar na sua perspectiva escatológica e aceita qualquer opção moral em nome da liberdade individual. Uma sociedade como a actual pode tornar-se surda quer aos sofrimentos físicos, quer às exigências espirituais e morais da vida. Não deve ser assim na comunidade cristã! O apóstolo Paulo convida a procurar o que «leva à paz e à edificação mútua» (Rm 14, 19), favorecendo o «próximo no bem, em ordem à construção da comunidade» (Rm 15, 2), sem buscar «o próprio interesse, mas o do maior número, a fim de que eles sejam salvos» (1Cor 10, 33). Esta recíproca correcção e exortação, em espírito de humildade e de amor, deve fazer parte da vida da comunidade cristã.
Os discípulos do Senhor, unidos a Cristo através da Eucaristia, vivem numa comunhão que os liga uns aos outros como membros de um só corpo. Isto significa que o outro me pertence: a sua vida, a sua salvação têm a ver com a minha vida e a minha salvação. Tocamos aqui um elemento muito profundo da comunhão: a nossa existência está ligada com a dos outros, quer no bem quer no mal; tanto o pecado como as obras de amor possuem também uma dimensão social. Na Igreja, corpo místico de Cristo, verifica-se esta reciprocidade: a comunidade não cessa de fazer penitência e implorar perdão para os pecados dos seus filhos, mas alegra-se contínua e jubilosamente também com os testemunhos de virtude e de amor que nela se manifestam. Que «os membros tenham a mesma solicitude uns para com os outros» (1Cor 12, 25) – afirma São Paulo –, porque somos um e o mesmo corpo. O amor pelos irmãos, do qual é expressão a esmola – típica prática quaresmal, juntamente com a oração e o jejum – radica-se nesta pertença comum. Também com a preocupação concreta pelos mais pobres, pode cada cristão expressar a sua participação no único corpo que é a Igreja. E é também atenção aos outros na reciprocidade saber reconhecer o bem que o Senhor faz neles e agradecer com eles pelos prodígios da graça que Deus, bom e omnipotente, continua a realizar nos seus filhos. Quando um cristão vislumbra no outro a acção do Espírito Santo, não pode deixar de se alegrar e dar glória ao Pai celeste (cf. Mt 5, 16).
3. «Para nos estimularmos ao amor e às boas obras»: caminhar juntos na santidade.
Esta afirmação da Carta aos Hebreus (10, 24) impele-nos a considerar a vocação universal à santidade como o caminho constante na vida espiritual, a aspirar aos carismas mais elevados e a um amor cada vez mais alto e fecundo (cf. 1Cor 12, 31 – 13, 13). A atenção recíproca tem como finalidade estimular-se, mutuamente, a um amor efectivo sempre maior, «como a luz da aurora, que cresce até ao romper do dia» (Prov 4, 18), à espera de viver o dia sem ocaso em Deus. O tempo, que nos é concedido na nossa vida, é precioso para descobrir e realizar as boas obras, no amor de Deus. Assim a própria Igreja cresce e se desenvolve para chegar à plena maturidade de Cristo (cf. Ef 4, 13). É nesta perspectiva dinâmica de crescimento que se situa a nossa exortação a estimular-nos reciprocamente para chegar à plenitude do amor e das boas obras.
Infelizmente, está sempre presente a tentação da tibieza, de sufocar o Espírito, da recusa de «pôr a render os talentos» que nos foram dados para bem nosso e dos outros (cf. Mt 25, 24-28). Todos recebemos riquezas espirituais ou materiais úteis para a realização do plano divino, para o bem da Igreja e para a nossa salvação pessoal (cf. Lc 12, 21; 1Tm 6, 18). Os mestres espirituais lembram que, na vida de fé, quem não avança, recua. Queridos irmãos e irmãs, acolhamos o convite, sempre actual, para tendermos à «medida alta da vida cristã» (João Paulo II, Carta ap. Novo millennio ineunte, 31). A Igreja, na sua sabedoria, ao reconhecer e proclamar a bem-aventurança e a santidade de alguns cristãos exemplares, tem como finalidade também suscitar o desejo de imitar as suas virtudes. São Paulo exorta: «Adiantai-vos uns aos outros na mútua estima» (Rm 12, 10).
Que todos, à vista de um mundo que exige dos cristãos um renovado testemunho de amor e fidelidade ao Senhor, sintam a urgência de esforçar-se por adiantar no amor, no serviço e nas obras boas (cf. Hb 6, 10). Este apelo ressoa particularmente forte neste tempo santo de preparação para a Páscoa. Com votos de uma Quaresma santa e fecunda, confio-vos à intercessão da Bem-aventurada Virgem Maria e, de coração, concedo a todos a Bênção Apostólica.
Vaticano, 3 de Novembro de 2011
BENEDICTUS PP. XVI