II DOMINGO DE ADVENTO
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Temas
de
fundo
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1ª
leitura (Is 11,1-10): Um rebento nascerá
do tronco de Jessé e um renovo brotará das suas raízes. E o espírito
do Senhor repousará sobre ele: espírito de sabedoria e de entendimento,
espírito de conselho e de fortaleza, espírito de ciência e de temor do
Senhor. Não julgará pelas aparências nem proferirá sentenças só por
ouvir dizer; mas julgará os pobres com justiça e defenderá os direitos
dos desprotegidos. A sua palavra será como um chicote para os tiranos e
os maus serão aniquilados com o sopro dos seus lábios. A justiça será
o cinto dos seus rins e a integridade circundará os seus flancos. Então
o lobo viverá em paz com o cordeiro e o leopardo deitar-se-á ao lado do
cabrito; e o novilho e o leão pastarão juntos guiados por um menino. A
vaca e a ursa pastarão juntas e as suas crias repousarão em paz. O leão
alimentar-se-á de palha como o boi. A criancinha brincará na toca da víbora
e o menino acabado de desmamar meterá a mão na toca da serpente. Não
haverá nem dano nem destruição em todo o meu santo monte. A terra estará
cheia da sabedoria do Senhor, como o mar está cheio da vastidão das águas.
Nesse dia, a raiz de Jessé será posta como estandarte para todos os
povos, que procuração com ânsia a cidade real como morada gloriosa. *
A terra estará cheia da sabedoria do Senhor.
Este
trecho do primeiro Isaías é, sem sombra de dúvida, um dos poemas messiânicos
mais conhecidos, embora não seja fácil situá-lo de maneira
historicamente exacta. Seja como for, é evidente que a dinastia do povo
eleito sob o reinado de Ezequias está num momento de crise, oscilando
entre os apelos e as solicitações das duas grandes potências da altura:
Egipto e Assíria. O profeta aproveita então o momento de desnorteamento
para propor ao povo uma outra solução que não assenta no poder das
armas e nas políticas humanas, mas num «regime» que seja guiado pela
sabedoria do Senhor. A profusão de imagens que utiliza - e que não devem
desviar a atenção do essencial - tem por finalidade descrever as
qualidades de paz e harmonia que caracterizarão o novo rei, o Messias de
origem davídica. Por outras palavras, o autêntico «governo», que
garanta realmente um clima de harmonia e entendimento, está dependente da
adesão dos homens ao Senhor. PARA
ULTERIOR APROFUNDAMENTO, VEJA EM BAIXO. 2ª
leitura (Rm 15,4-9): Tudo
o que foi escrito no passado foi-o para nossa instrução, de modo a
mantermos viva a esperança, pelo ânimo e pela consolação que nos dão
as Escrituras. Que Deus, fonte da paciência e da consolação, vos
conceda toda a união nos mesmos sentimentos, uns com os outros, a exemplo
de Jesus Cristo, para que, numa só voz, glorifiqueis a Deus, Pai de Nosso
Senhor Jesus Cristo. Acolhei-vos, pois, uns aos outros, para glória de
Deus, como também Cristo vos acolheu a vós. Digo-vos que a vida de serviço
de Cristo a Deus foi a favor dos circuncisos (judeus), para assim
confirmar as promessas feitas aos patriarcas, mas também para
possibilitar aos gentios louvar a Deus pela sua bondade, como está
escrito: «Por isso te louvarei entre as nações e cantarei em honra do
teu nome». *
Deus é fonte de paciência e consolação.
A
reconciliação entre os que são apelidados de «fortes» e «fracos»
(hoje, diríamos «modernistas» e «conservadores», com as conotações
de que se revestem) é um conceito muito importante e actual no pensamento
de S. Paulo, nomeadamente na Carta aos Romanos. É tão importante e
actual que ele ao assunto dedica dois capítulos da sua Carta. Acontece
que se tinham formado dois grupos «rivais» nas comunidades em geral e na
comunidade de Roma em particular: por um lado, os escrupulosos na observância
das normas da Lei (a quem ele designa por fracos) e, por outro, os que as
consideravam secundárias (os chamados fortes). Ora, esta intolerância mútua
tornava impossível a celebração da própria Eucaristia em comum. Daí a
insistência do Apóstolo em apontar o olhar para Cristo, que a todos
acolheu, tanto judeus como gentios. A conclusão é simples: que os cristãos
- sejam de que proveniência forem - façam todo o possível para ter a
mesma união de sentimentos, olhando mais para o que os une do que para o
que os separa. Cristo, com a sua vida e actuação, anulou toda a distinção
entre homem e homem.
PARA
ULTERIOR APROFUNDAMENTO, VEJA EM BAIXO. Evangelho
(Mt 3,1-12): Naquele tempo, apareceu João Baptista a pregar no deserto da Judeia: «Convertei-vos,
porque está próximo o Reino do Céu». João era o homem de quem o
profeta Isaías falava, quando disse: «Uma voz clama no deserto: preparai
os caminhos do Senhor e endireitai as suas veredas»... Ia ter com ele
gente de Jerusalém, de toda a Judeia e da região do Jordão. Confessavam
os seus pecados e eram baptizados por ele no Jordão. Vendo, porém, que
vinham ao seu baptismo muitos fariseus e saduceus, disse-lhes: «Raça de
víboras, quem vos disse que podíeis fugir da cólera que está para vir?»...
(E dizia): «Eu baptizo-vos em água, para vos mover à conversão. Mas
aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu e eu não sou digno
de lhe desatar as sandálias. Ele há-de baptizar-vos no Espírito Santo e
no fogo...». *
Está próximo o Reino do Céu.
A
apresentação que Mateus faz do Baptista dá-nos uma ideia igual à de
tantos outros profetas que recorrem, quando é necessário, mesmo a gestos
espectaculares e inauditos para que a sua mensagem se traduza em frutos de
penitência e conversão. Seria algo especulativo dizer o que se terá
passado nas margens do Jordão, mas a verdade é que o que mais interessa
é a preocupação de João Baptista em levar as pessoas a mudar de vida.
Uma outra preocupação clara é o facto de não ultrapassar o seu papel
de intermediário ou de preparador do caminho. Ele, também nesse sentido,
é verdadeiro profeta, na medida em que é aquele que fala em nome de Deus
e, no caso concreto, em nome daquele de quem ele não é sequer digno de
desatar as correias das sandálias. E, no fundo, é isso que importa,
porque só aquele que ele anuncia, Jesus, é o único capaz de provocar a
verdadeira conversão e salvação através do baptismo no Espírito e no
fogo. PARA
ULTERIOR APROFUNDAMENTO, VEJA EM BAIXO. |
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*
Brotará
um
rebento do tronco de Jessé. * Cristo
acolheu-nos para a glória de Deus. * Preparai
o caminho do Senhor e endireitai as suas veredas. |
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ELE VOS TRARÁ
UM BAPTISMO DE ESPÍRITO E DE FOGO. |
O idílio da
paz messiânica
O trecho de Isaías escolhido para hoje é, literariamente, dos mais belos e mais citados em relação à vinda do Messias. E é de facto impressionante em termos de profusão de imagens poéticas, que, no caso presente, devo acrescentar, são originalmente arrojadas e «provocatórias». Ora, esse facto deixa logo antever uma intuição: não é preciso ter muita capacidade de análise para concluir que a ideia do «profeta/trovador» não será com toda a certeza prognosticar, para um futuro mais ou menos próximo ou longínquo, qualquer espécie de paraíso idílico, onde todas as regras que marcam as relações da natureza sejam totalmente viradas do avesso e desrespeitadas.
Deduzir, portanto, das suas palavras, por exemplo, que há-de vir um tempo em que, efectivamente, o «lobo habitará com o cordeiro» e «o leão comerá palha com o boi», seria, por um lado, não ter sensibilidade alguma para compreender o génio da linguagem poética e simbólica e, por outro lado, amesquinhar e distorcer por completo o sentido da mensagem do profeta. Seja-me permitido acrescentar que, de resto, mesmo que, por hipótese, essa coexistência entre os animais se verificasse, que interesse salvífico teria esse facto em si para a humanidade? Isso seria apenas um facto circunstancial.
A este propósito, fique claro que, para lermos correctamente um determinado texto (incluindo naturalmente um texto bíblico), não podemos ater-nos apenas ao sentido literal das palavras ou das frases; e muito menos podemos ater-nos apenas a cada palavra ou frase consideradas isoladamente. O que realmente importa é descobrir a ideia que as palavras pretendem veicular (mesmo quando elas se demonstram insuficientes, como é quase sempre o caso).
Então, como é bom de ver, a intenção primordial de Isaías não é, por isso, falar nem de cordeiros, nem de leões, nem de bois, nem da harmonia ou não existente entre eles. A ideia-chave de Isaías, nesta passagem, é fazer ver aos seus concidadãos que hão-de vir tempos, aquando da chegada dum «rebento do tronco de Jessé» [o Messias originário da dinastia davídica (Jessé é precisamente o pai de David)], em que se verificará uma obra prodigiosa de «transformação», dum mundo de ódio e inimizade para um mundo de entendimento e de pacífica harmonia e convivência. Como me parece óbvio, trata-se em primeiro lugar de relacionamento harmonioso entre os homens, e não entre os animais irracionais.
Pacificando
a criação
O profeta anuncia, é certo, tempos de renovação e pacificação dos homens entre si e entre os homens e as próprias obras da criação. Em todo o caso, o seu anúncio está sujeito a alguns condicionamentos e contingências; os condicionamentos e contingências próprios da história humana. Ou seja, nada do que Isaías «prevê» acontecerá mecanicamente, e nem sequer a batuta mágica do Omnipotente se substitui ao curso normal das coisas. Em termos absolutos e teóricos, a quem tem fé não é difícil afirmar que Deus poderia transformar tudo num abrir e fechar de olhos (como se costuma dizer). Mas, por mais incompreensível que isso se nos apresente, essa não é a sua maneira habituar de resolver os problemas.
O Senhor, sem dúvida, levará a cabo a sua obra, mas no seu devido tempo, ou seja, respeitando as características e os ritmos do processo de crescimento do ser humano, sob o impulso do seu «Ungido» e do «Espírito», que penetra imperceptivelmente, com a sua força de transformação, nos corações humanos, sem lhes diminuir a liberdade. Ou seja, por outras palavras, a acção do Messias prometido e enviado por Deus processa-se, digamos assim, segundo «critérios» que pouco têm a ver com as regras do eficientismo humano.
Que tipo de
messianismo?
É nesta linha de pensamento que se insere uma das ideias ou temas fortes do Advento como momento privilegiado de preparação para o Natal: o tema do messianismo. Teoricamente, poderia até, querendo, exibir algum tipo de erudição nesta matéria, citando os especialistas para descrever o que se deve entender por messianismo. Mas deixo de boa vontade essa pretensão de lado, porque prefiro limitar-me a propor algumas ideias mais simples que nos ajudem a intuir e a compreender, com a nossa interioridade, o que vai pelo coração de Deus.
Talvez esta possa parecer uma pretensão ainda mais exagerada que a primeira, mas, sinceramente, não é minha intenção deslumbrar ninguém, apenas propor uma sugestão. Assim, quando se pensa em messianismo, é possível dar connosco a imaginar o que os próprios judeus contemporâneos de Jesus pensavam do Messias: a figura dum guerreiro vitorioso em toda a linha que, com a força das armas, faria de Israel o país mais poderoso em toda a terra, predestinado a substituir para sempre os inimigos romanos.
Essa ideia de Messias denunciava uma clara tonalidade política, sobretudo tendo em conta que os judeus estavam sob o domínio dos romanos, que pareciam omnipresentes. Era um facto que o mundo de então por eles conhecido estava todo sob a alçada do império romano. Ora bem, com a vinda do Messias prometido, no fundo, o que eles pretendiam era serem os novos «romanos» dominadores do mundo. E a soberania do Messias, na maneira de ver dos judeus, seria tanto mais generalizada e «espectacular» quanto o Messias era o mais forte, porque tinha em si toda a força do próprio Deus.
Pois bem, não é este tipo de messianismo que Deus tem em vista, digamos assim. O Messias, na «óptica» de Deus, não é dominador em termos político-militares. Deus não é político e muito menos militarista. De resto, se porventura se tratasse de um messianismo nacionalista, por que tipo de nacionalidade, ou melhor, por que nacionalismo, Deus iria optar? O messianismo de Deus tem outras características e não contempla nem vencidos nem vencedores, não contempla transformações de tipo político e social (a não ser como consequência da transformação dos corações), porque, como diz Isaías, «não haverá nem dano nem destruição no seu santo monte, mas a terra estará cheia do conhecimento do Senhor» (cf. Is 11,9).
Rei possuído
pelo Espírito
O Messias tipificado por Isaías (e não só!) é alguém totalmente diferente daquilo que nós possamos imaginar. Nestas coisas (como em quase todas), Deus gosta muito de «pregar partidas» (deixem passar a expressão!), gosta muito de «surpresas». Se fôssemos nós – está bem de ver! – resolveríamos todos os problemas da humanidade em dois tempos (porventura recorrendo não à força da razão mas à razão da força). É por isso que, se calhar, nós, cristãos (e, já agora, outros crentes), mesmo sem nos darmos conta disso, a ideia que hoje, por vezes, ainda continuamos a alimentar é a dum Messias capaz de «escaqueirar» tudo de alto a baixo.
Mas, no fundo, pensando bem, nesse caso e nessa óptica de poder discricionário, na nossa mente, sub-repticiamente, está implícita a ideia de que o Messias teria que estar como que às nossas ordens, para «escaqueirar»... os outros! Só que, como diz o mesmo livro de Isaías (segunda parte), «os caminhos do Senhor não são os nossos caminhos e os nossos pensamentos não são os pensamentos de Deus» (cf. Is 55,8-9).
Deus planeou, digamos assim, o «domínio» do seu Messias - como creio que planeou - mas não necessariamente segundo as nossas categorias eivadas de poder e de domínio. O reino messiânico não tem a ver com a ideia que nós temos a tendência a fazer dele. E a «surpresa» máxima é a forma como o Messias faz o seu ingresso neste mundo: incarna na figura e na pessoa dum menino indefeso e carente de todos os cuidados. É um Messias que, sob o impulso do Espírito, anuncia a Boa Nova aos pobres, proclama a libertação aos cativos, dá a vista aos cegos e liberta os oprimidos» (cf. Lc 4,18; Is 61,1-2). Não se fala de domínio em sentido político ou de «limpeza» pela violência, porque é igualmente certo que Ele não veio «apagar a chama que fumega» (cf. Mt 12,19-20).
Senhor dos
fortes e dos fracos
Por outro lado, o «Ungido do Senhor» não é propriedade de nenhuma criatura. Por isso, Ele não está sujeito ao capricho de ninguém; nem sequer quando esse capricho se enfeita de virtude ou se esconde sob a capa de desejo do triunfo do bem. Visto assim, em termos de verbalização doutrinal, este parece um afirmação evidente, que não sofre contestação. Só que a história concreta demonstra-nos ter sempre havido tentativas de se «apropriar» dele como se de um talismã de fortuna qualquer se tratasse. Tentativas que certamente não deixarão de existir no presente e no futuro. Mas nem por isso Ele é o que eventualmente possamos imaginar ou julgar.
A segunda leitura de hoje (escolhida da Carta aos Romanos) faz-se eco de algumas tentativas de apropriação desse género. Para entender o contexto em que o assunto está inserido, talvez convenha ler com alguma atenção o capítulo anterior ao texto em análise. Em termos genéricos, Paulo alude a uma dicotomia que causava estragos na comunidade ou «Igreja» de Roma: uma parte dos cristãos, que julgavam ter atingido a maturidade na fé, consideravam-se livres em relação a toda uma série de prescrições de origem judaica; ao passo que outra parte, ainda débil na fé, no fundo, identificava a sua vida cristã simplesmente com essas práticas herdadas da tradição, não ligando, se calhar, muito às novidades trazidas por Cristo. Mais, julgava que quem as não pusesse em prática estava fora da plataforma da salvação.
Adesão só
a Cristo
Obviamente, cada uma dessas «categorias» de cristãos («fortes» e «fracos», segundo a terminologia paulina) julgava e desejava que tinha razão; e queria ver essa pretensão reconhecida e sancionada pela autoridade de Paulo. Mas a resposta de Paulo, para a resumirmos em termos simples, não pode ser senão uma: Jesus Cristo é ao mesmo tempo Senhor dos fortes e dos fracos. Daí se segue que, na prática, mais importante que colocar-se em barricadas antagónicas, o que há a fazer é aderir pessoalmente a Cristo e, através dele, a Deus. Aderir a Jesus Cristo é muito mais importante - é fundamental - do que o resto. Ora, neste capítulo, há muitíssimo caminho ainda a percorrer.
Mais concretamente, a crítica recíproca (afinal, é a solução mais fácil) não é, segundo Paulo, o caminho a seguir. A pertença a Cristo Jesus é que constituir o traço fundamental e constitutivo da vida cristã, independentemente da diversidade de posições que se possa constatar em questões não absolutamente essenciais. É exactamente neste contexto que se entende com mais clareza o que Paulo diz no capítulo 14 (que precede a leitura de hoje): «Nenhum de nós vive para si mesmo. Se vivemos, é para o Senhor. E, se morremos, é igualmente para o Senhor que morremos. Seja como for, é ao Senhor que pertencemos» (Rm 14,7-8). Mas, em termos práticos, como é difícil entender e acolher esta conclusão em termos operativos!
Toda a questão deve, pois, ser colocada noutros termos. Ou seja, não é o Senhor que é nosso (e, por isso, quer sejamos «fracos» quer «fortes», não temos autoridade para impor a ninguém o nosso figurino de Messias), mas somos nós que somos do Senhor, quer sejamos «fortes» quer sejamos «fracos». E, nesse sentido, a consequência é nós adequarmo-nos às exigências dele, e não o contrário. Assim, seremos tanto mais seus quanto mais nos parecermos com Ele e não ao contrário.
Reino
cimentado na harmonia
Do que ficou dito atrás, não me parece ilegítimo poder afirmar que, já no tempo de Paulo, havia, não propriamente conflitos de ortodoxia (ou havia?), mas pelo menos pretensões nada dissimuladas de hegemonia. Tratava-se de tentativas de ganhar proeminência por parte duma categoria determinada de fiéis dentro da Igreja em relação a outra. Em termos actuais, talvez a contraposição entre «fortes» e «fracos» possa ser traduzida mais clara e exactamente pela distinção (meramente convencional) entre «esquerda» e «direita» ou, a nível de linguagem de Igreja, entre «progressistas» e «conservadores».
Em todo o caso, na opinião de Paulo, o confronto e a contraposição não devem ser o acento a prevalecer. Neste aspecto, o seu pensamento pode resumir-se no seguinte: os «fracos» não condenem os «fortes» e os «fortes» não desprezem os «fracos». E, quanto a isso, Paulo não deixa dúvidas de qualquer espécie: «Procure cada um de nós agradar ao próximo no bem, em ordem à construção da comunidade» (Rm 15,2). E a base dessa atitude de reconciliação «no que nos une mais do que no que nos separa» assenta num facto que deve ser incontroverso para qualquer das «correntes»: o Messias de Israel, após a morte e ressurreição, tornou-se Senhor de todos os povos, independentemente da raça (judeus e não judeus, como era o caso dos destinatários da Carta de Paulo), e também, claro, independentemente da categoria social e do sexo.
O mundo de hoje não é, de certo, o mundo do tempo de Paulo, pois as circunstâncias e as inovações a todos os níveis são outras. Mas isso não quer dizer que, substancialmente, os sentimentos mais íntimos se tenham modificado muito. Como no tempo de Paulo, também nos dias de hoje há pessoas mais conscientizadas (passe a palavra) no que diz respeito aos problemas de fé (e não só) e pessoas menos conscientizadas. Mas, para que o relacionamento seja pacífico e eficaz, a solução é sempre a mesma: a certeza e a confissão de que Jesus Cristo é o único Salvador e Senhor de todos. As diferenças de raça, sexo, cultura (e de cultura religiosa, naturalmente), a diversidade de opinião, e mesmo de ritos e prática religiosa, nunca deveriam ser motivos de divisão e muito menos de disputa (como, infelizmente, ainda acontece tantas vezes).
Preparar
sempre o Reino
Em todo o caso, o ideal de harmonia e entendimento proposto e preconizado por Paulo, como devendo assentar no facto de só Jesus ser o Senhor de todos, está muito longe de ser uma realidade. Por isso, é urgente insistir na necessidade da mudança radical de atitudes, na «conversão» contínua de mentalidades e de coração. É esta também a grande «batalha» travada por João Baptista (leitura evangélica) no sentido de preparar os caminhos para a vinda do Messias prometido. E não deixa de ser sintomático que a pregação do próprio Jesus comece com palavras praticamente idênticas às utilizadas por João: «Convertei-vos, porque está próximo o Reino do Céu» (Mt 5,17). Não será isso um sinal de que aqui reside a própria essência da mensagem evangélica?
É certo que a «conversão» não deixava de ser um tema recorrente também entre os fariseus e os saduceus do tempo de Jesus. Mas então qual é a diferença entre a conversão pregada por João e a conversão proposta pelos fariseus e saduceus? A diferença está no entendimento que dela tinham um e outros. A conversão «farisaica» também implicava, é certo, uma certa «mudança de mentalidade», mas tratava-se de uma simples adequação «mecânica» das atitudes de vida a um conjunto de regras. Bastava seguir essas normas à letra para se poder continuar a usufruir do privilégio de ser filho de Abraão. Com efeito, tanto os fariseus como os saduceus sabiam perfeitamente que havia muitos judeus que não mereciam o «nome de filhos de Abraão», se não «mudassem de mentalidade» (ou seja, se não cumprissem os dispositivos da Lei)...
João Baptista é que não parece lá muito disposto a aceitar essa ideia de conversão restritiva e limitativa. Para ele, a conversão era muito mais do que mera «operação de cosmética». Senão, como é que poderia sair-se com uma «tirada» tão contundente em relação a eles (fariseus), mesmo sabendo que tinham a preocupação de pôr em prática mais um gesto ritual como era o realizado por João? É certamente por saber que eles não estavam dispostos a mudar o coração que João lhes diz na cara: «Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da cólera que está para vir?... Deus pode suscitar, destas pedras, filhos de Abraão» (Mt 3,7b.9b).
Importante
é voltar para Deus
Utilizando agora categorias verbais a nós mais familiares, podemos dizer que, para ser cristão, não basta ter o nome inscrito nos assentos de baptismo. E, por conseguinte, se é assim, então na génese duma autêntica conversão no sentido evangélico, está uma opção que deve ser decisiva: a de orientar a própria vida segundo os parâmetros do Reino do Céu, um reino construído a partir desta terra na base da justiça, do diálogo, do encontro, da reconciliação e do amor mútuo.
Em suma, bem no fundo, João Baptista dá a entender que a conversão que conta deverá basear-se, prioritariamente, não em tradições humanas, por mais venerandas e respeitáveis que sejam, mas sim na aceitação daquele cujas sandálias ele não é digno de desatar. Dito doutra maneira, a mudança radical consiste em acreditar (com a mente e com as obras) que o Reino do Céu se realiza na pessoa de Jesus: ou seja, o homem deve «voltar-se» para Deus porque Deus se voltou para os homens em Jesus Cristo.
«Voltar-se» para Deus, através de Jesus Cristo, é algo que tem acontecido na
história de gerações e gerações e é algo que continuará a acontecer,
sempre que Jesus for sendo descoberto a sério por alguém. E é por isso que se
continua a proclamar que o Reino de Deus está próximo. É um Reino que
continua a vir e ainda não está completo; e a plenitude é algo que implica não
apenas algumas, mas o maior número possível de pessoas. Por isso, enquanto os
homens não souberem e aceitarem, «com uma só alma e um só Espírito», que
«Jesus é o Senhor», Ele continua a vir.