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Carta Pastoral do Cardeal-Patriarca de Lisboa, D.
José Policarpo
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É bom esclarecer, desde o início, o sentido em que usamos as palavras
“Igreja” e “Cidade”. Por Igreja entendemos toda a comunidade dos crentes, que
entraram nela pelo baptismo e se reúnem ao domingo para celebrar o memorial
da Páscoa de Jesus. Se o baptismo consagra o crente, unindo a sua vida à de
Cristo ressuscitado, a celebração dominical sublinha e afirma a visibilidade
histórica e social da Igreja. Na linguagem corrente há tendência
simplificadora de falar da Igreja referindo-se apenas à sua Hierarquia.
Quando for esse o sentido das nossas afirmações, referi-lo-emos
explicitamente. Em geral falaremos da Igreja como Povo de Deus, totalidade
dos fiéis, verdadeiro sujeito social da missão e da presença da Igreja na
cidade. A Igreja é uma realidade complexa, que dificilmente se compreende a partir da
simples observação exterior. Aproximamo-nos mais da percepção da sua
realidade através da vivência dos cristãos, que são chamados a fazer das suas
acções o reflexo do mistério em que acreditam. A dimensão
mais decisiva e fundamental da realidade da Igreja é invisível,
silenciosa, guardada e sentida no mais íntimo do coração humano. A união
vital a Jesus Cristo, que está vivo na Sua Igreja e a participação na
comunhão de vida e de amor das próprias pessoas divinas, o Pai, o Filho Jesus
Cristo e o Espírito Santo, são dimensões decisivas na vida cristã, que só se
adivinham e pressentem no reflexo que têm na vida dos cristãos. Mas, por
outro lado, devido à força comunitária da sua expressão, a Igreja tem uma
forte visibilidade histórica e social, “é tão visível como a República de
Veneza”, dizia São Roberto de Belarmino. É verdadeiramente uma comunidade
visível, estruturada e hierarquizada; é visível no seu número, na força da
comunidade reunida, na expressão da sua fé na cidade, na maneira como se
organiza para a missão. Na sua visibilidade, ela interpenetra-se e interpela
a cidade. A força da Igreja reside na unidade entre esta visibilidade e a sua dimensão
misteriosa e invisível. Também aqui ela imita Jesus Cristo, Seu Senhor, que
na visibilidade da Sua natureza humana nos torna presente o mistério
insondável do mistério de Deus . Aliás acontece algo
de semelhante com o homem, que exprime a dimensão espiritual que o define e
distingue, através da sua corporeidade. Um corpo sem alma não é humano. Esta
variada riqueza da realidade da Igreja está toda presente na sua presença e
acção na Cidade. Ao falar de Igreja na Cidade, olhamos particularmente para a nossa cidade de
Lisboa, para todas as cidades da nossa diocese, a quem queremos proclamar o
Evangelho da esperança. Mas o que dissermos aplica-se à missão da Igreja na
sociedade, vista como um todo, pois nenhuma cidade se pode isolar da
sociedade mais vasta em que está inserida.
A Igreja faz parte da Cidade 3. A expressão “missão na cidade” não pode ser entendida no sentido dos
missionários que vêem de longe anunciar o Evangelho à cidade, como Jonas foi
enviado a Nínive ou como São Francisco Xavier que percorreu todo o Oriente a
proclamar, pela primeira vez, o Evangelho de Jesus Cristo. Não. Entre nós, a
Igreja está na cidade, ela faz parte da cidade, da sua história, das suas
mais enraizadas tradições, da sua cultura; é inspiradora dos valores que
prossegue. Entre a Igreja e a nossa cidade há um longo caminho percorrido em
conjunto e queremos continuar a percorrê-lo, para que seja mais humana, justa
e acolhedora. A Igreja na sua fisionomia de Povo de crentes e na sua estruturação
comunitária, apresenta-se com a visibilidade de uma cidade, a Cidade de Deus,
lhe chamou Santo Agostinho. Mas isso não a separa, nem isola, da cidade dos
homens. Quando muito diremos, com o Concílio Vaticano II, que o cristão é
cidadão de duas cidades. Os valores de comunhão e de fraternidade que devem
caracterizar a Igreja como comunidade, são os mesmos valores com que os
cristãos devem contribuir para o progresso da cidade dos homens. É por isso
que todo o esforço para construir uma sociedade mais fraterna e mais digna do
homem, é missão dos cristãos e pode ser expressão da sua fé. E o seu
reconhecimento na cidade passa também pela evidência do seu contributo
específico para o bem comum, quando se torna claro que a sua fé e o dinamismo
que dela brota, se transformam em mais valia para a cidade. A fé cristã inspira uma maneira de viver, fundamentada na dimensão teologal
de participação na “vida nova” de Cristo ressuscitado, que deve exprimir-se
em todas as dimensões do exercício da liberdade, pessoais e sociais. Foi para
a liberdade que Cristo vos libertou, escreveu São Paulo aos cristãos de Roma
(cf. VI, 6). É no concreto das opções e das reacções que o cristão é chamado
a exprimir a novidade vital da sua fé. A experiência religiosa não isola o
cristão num reduto místico que o separa da cidade dos homens. É aí que ele é
chamado a testemunhar a esperança. O cristão não deve fugir da cidade, mesmo
quando é incompreendido ou mesmo perseguido. E essa é a verdadeira “missão na
cidade”: ir anunciando, pelo testemunho de uma existência coerente com a fé,
a novidade libertadora do Evangelho de Jesus Cristo. É algo de permanente,
que faz parte intrínseca da missão da Igreja no mundo. Talvez a galopante
laicização da nossa sociedade encontre também a sua causa nessa falta de
testemunho vivo dos cristãos na cidade. Esconder-se, atemorizados pela
dificuldade das circunstâncias, ou não perceber que o concreto da vida é
campo de expressão da fé, é, no fundo, abandonar a cidade.
II – A NOSSA CIDADE 4. A missão da Igreja na cidade exige que se conheçam as grandes coordenadas
da sua problemática humana. As cidades, enquanto grandes aglomerados de
populações, deveriam ser espaço de encontro e de convergência, de
solidariedade e de partilha da vida, numa palavra, espaços abertos à
construção de comunidades. Esta dimensão humana é a que mais interpela a
Igreja, pois é às pessoas que ela é enviada para as ajudar a serem felizes,
construindo, em comunidade, a consciência da sua dignidade e o espaço da sua
liberdade. Como os próprios cientistas reconhecem, esta visão humanista da
cidade está por desenvolver e tem sido esquecida no traçar das políticas e no
gizar de soluções para a cidade. E, no entanto, ela é decisiva para garantir
o rosto humano das cidades, concebidas como espaço de convivência entre
pessoas. A missão da Igreja leva necessariamente à edificação de comunidades,
enraizadas no mandamento cristão do amor fraterno, particularmente atentas
aos mais isolados e distantes desse calor da comunhão, abertas e acolhedoras
de todos os que buscam a partilha fraterna, anunciando-lhes o ideal da
comunhão cristã. A missão da Igreja, enquanto dinamismo comunitário, pode ser
decisiva na edificação de uma cidade de rosto humano. Estamos conscientes de que os problemas da sociedade global se espelham na
problemática das grandes cidades, não apenas devido ao fenómeno da
“urbanização” progressiva das populações, mas também porque elas se tornam
pólos de influência no todo da população, por serem centros de decisão do
poder político, da actividade económica e financeira, da expressão cultural.
Ao falarmos da cidade não deixamos de parte o resto da diocese, pois Lisboa
é, hoje, uma realidade envolvente, composta por cidades e bairros periféricos
que marcam o ritmo de toda a população. 5. Lisboa tem alma própria, que lhe define a sua identidade cultural, e que
tem de ser tomada em conta neste projecto de evangelização, até porque as
componentes dessa identidade cultural, ou têm origem no cristianismo, ou são
convergentes com ele, constituindo aberturas ao anúncio do Evangelho. Lisboa nasceu abraçada pelo rio. Segundo uma tradição remota, Lisboa veio do
mar. Aqueles que a fundaram deixaram-se cativar pelo carácter acolhedor do
estuário do Tejo. A alma de Lisboa é incompreensível sem a sua relação com o
rio, que a abre ao horizonte largo do Oceano, desafio de aventura e de
universalidade. Do mar vieram os cruzados e as relíquias de São Vicente; ao
Tejo chegaram, certamente, os primeiros evangelizadores, mercadores ou
soldados; do Tejo partiram as caravelas, abrindo Lisboa à universalidade. Na definição desta alma de Lisboa ressalta a sua identidade cristã, que nem o
terramoto soterrou, visível nas torres e fachadas das Igrejas, elementos
estruturantes do tecido urbano, na beleza do património artístico religioso que,
sem deixar de encher as Igrejas, foi suficiente para enriquecer museus. E
como não reconhecer a alma de Lisboa nas grandes tradições culturais de
natureza religiosa: a procissão da Senhora da Saúde, de
Santo António, do Corpo de Deus? Longamente dominada por muçulmanos, nela sempre habitaram cristãos e
judeus, numa experiência única de convivência e tolerância. Esta tem de
continuar a ser uma nota constitutiva da fisionomia cultural de Lisboa, na
imensa variedade da sua população actual. Só assim se vencerá a dificuldade
de muitas metrópoles contemporâneas: a fragmentação em estratos
populacionais, incomunicáveis entre si, anulando aquele que deveria ser o
elemento definidor de uma cidade, a comunicação e inter-acção entre as
pessoas, as famílias, os diversos grupos populacionais. A Igreja, enquanto
fenómeno de comunhão, tem de se assumir como proposta de solução para este
problema. Só assim se revitalizará a vertente cristã da alma de Lisboa. 6. Lisboa, com atraso em relação a idêntico fenómeno nas grandes metrópoles
europeias, encontrou na imigração do campo para a cidade o elemento principal
da renovação demográfica. Ainda hoje, sobretudo nos bairros periféricos,
identificamos as populações pela zona do país de onde procedem, o que tem as
suas consequências na expressão comunitária das paróquias, devido à variedade
dos comportamentos religiosos de Norte a Sul do país. Hoje pode dizer-se que
a renovação demográfica de Lisboa depende, em grande parte, do “saldo
fisiológico”, isto é, o equilíbrio dos factores mortalidade e natalidade.
Este elemento tem, hoje, de ser completado com outros fenómenos, tais como a
imigração de outros povos, a mobilidade das populações actuais e a
permanência, ainda que em menor grau, da imigração procedente de outras zonas
do país. O tecido demográfico acarreta consigo outras características da população,
com particular incidência na evangelização e na missão da Igreja. Refiro, a
título de exemplo: a diferença entre a população de origem lisboeta e os grupos
populacionais de outras procedências étnicas ou regionais; a pluralidade
cultural e religiosa, de certo modo uma novidade na fisionomia de Lisboa, a desafiar à tolerância e ao diálogo entre culturas e
tradições religiosas. A tradição católica continua a ser maioritária, mas
fragilizada na sua capacidade de influência pelo grande número de habitantes
que não vivem, no concreto da experiência, a fé religiosa com que ainda se
identificam. Temos de perceber em que medida esta “não-prática” de um tão
grande grupo de católicos, é uma facilidade ou uma dificuldade para a
proposta evangelizadora. Nota-se, nesse grupo, a tendência de avaliar a
importância da Igreja pela sua intervenção social e de considerar que todas
as religiões são iguais. A descoberta da especificidade cristã tem de
constituir objectivo preciso da missão evangelizadora da Igreja. Tendo em conta a sua variedade plural, há outras características da população
de Lisboa, com incidências especiais na missão da Igreja, que vale a pena
referir aqui, ainda que sucintamente. 7. Trata-se de uma característica das grandes cidades, em evolução crescente
desde há dois séculos, mas que deu um salto qualitativo com a civilização do
automóvel e o alargamento da rede de transportes públicos. Tudo isto provocou
alterações sucessivas na concepção das cidades e na vida das populações. A
cidade passou a organizar-se a partir das exigências dos transportes, e não
das pessoas. Os chamados “peões” perderam espaço nas grandes cidades, que
privilegiaram a deslocação, de casa para o trabalho, da periferia para o
centro e vice-versa, na busca dos múltiplos centros de interesse das pessoas
e das famílias, que parecem passageiros em trânsito. A mobilidade introduz alterações profundas na compreensão da vida. Antes de
mais na definição do “tempo humano”, isto é, a relação da vida com a ocupação
do tempo, ou o tempo concebido como espaço para a vida. “Passageiros em
trânsito”, não têm tempo para a leitura, para o convívio, para a oração e
vida religiosa, para o lazer que passa a ser, apenas, e quando o é, mais um
número de um programa sobrecarregado. O cristianismo introduz na vida uma
dimensão contemplativa, o que supõe um tempo humano mais pacificador. Há
dimensões essenciais da felicidade humana que, para não as perder, é preciso
lutar contra o buliço da cidade. A Igreja não se pode deixar arrastar para
essa voragem do “tempo-sem-tempo”, e oferecer às pessoas o espaço-tempo da
tranquilidade e da paz. Uma outra consequência da mobilidade nas grandes cidades é a relativização do
território como elemento principal da definição do “sentido de pertença”. A
cidade está organizada numa base cultural, que se concretiza nos
procedimentos e nas leis, segundo a qual a pessoa
pertence ao sítio onde vive. Pertence-se à paróquia-freguesia da sua
residência; aí se vota, aí se põem os filhos na escola-pública e a partir
desse dado territorial se define o hospital ou centro de saúde a que se tem
acesso, etc. Ora, na cidade marcada pela mobilidade, surgem novos critérios
de pertença: a comunidade que se elegeu, o grupo a que se pertence, o lugar
onde se trabalha, as práticas de lazer que se cultivam. O cidadão da cidade
moderna define a sua vida num sistema de “multi-pertença”, que se relativiza
e até choca com o sentido de pertença definido a partir do território. No que à cidade de Lisboa diz respeito, e em termos de organização da Igreja,
este dado faz-se sentir no sentido de pertença a movimentos e comunidades
cristãs que não são as do território onde se vive, o que exige uma reflexão
séria e criativa sobre a paróquia urbana e a relação com ela de outras
realidades comunitárias, tais como os movimentos eclesiais e as comunidades
que se formam à volta de um elemento comum congregador, como o podem ser uma
escola católica ou um projecto de intervenção social. 8. Quando procuramos tipificar a população de Lisboa, não podemos ignorar um
estrato numeroso dessa população: os idosos, os que vivem sozinhos, os
pobres. Eles ocupam um lugar privilegiado no coração da Igreja. É urgente
aperfeiçoar os conhecimentos de definição, quantitativa e qualitativa, desta
população, para melhor estruturar formas de presença fraterna e de inclusão
social. A Igreja, com uma forte presença organizada nas estruturas de apoio assistencial,
pode ser, para muitos deles, a porta da esperança. A palavra que anuncia o
Evangelho tem de ser, junto desta população, acompanhada do testemunho da
ternura que liberta e ajuda cada um a sentir-se pessoa. E aí ganha relevância
a comunidade local, porque a caridade fraterna é também exercício de
vizinhança. A adensar a complexidade da nossa cidade, surgem aqueles bairros que muitos
evitam e alguns temem, porque intuem a possível relação existente entre eles
e a insegurança urbana. São, frequentemente, marcados por dimensões como as
minorias étnicas, os migrantes clandestinos, a economia paralela, a
marginalidade social. A Igreja tem já uma presença viva e estruturada em
todos eles e aparece como a instituição mais respeitada. Em alguns deles, a
acção da Igreja foi o ponto de partida da sua evolução e integração social.
Mas isso não significa que não continuem a representar, para a Igreja, um
grande desafio pastoral, inventando formas sempre novas de pôr em prática
aquilo a que João Paulo II chamou “a fantasia da caridade”. Temos consciência
de que a prioridade está em desenvolver acções e pedagogias envolventes que
levem os habitantes desses bairros a sentir-se pessoas, a conviverem com toda
a restante população na mesma cidade, da qual não se devem sentir excluídos e
ninguém os deveria excluir. Perante estes estratos de população mais problemáticos, a Igreja está
disposta a inter-agir, em convergência de colaboração, com outras entidades,
públicas e privadas. 9. É a esta cidade concreta que a Igreja é hoje enviada, anunciando a
esperança que brota da mensagem evangélica. A missão da Igreja na cidade é
uma realidade permanente, porque a Igreja partilha a vida, as tristezas e
alegrias, os problemas e as esperanças da cidade. A missão evangelizadora da
Igreja deve sempre harmonizar a dimensão perene da perspectiva evangélica da
vida e da história, com as respostas, situadas no tempo, aos problemas
actuais da comunidade. Trata-se de ler o Evangelho de sempre, como Palavra de
Jesus Cristo, vivo na Sua Igreja, discernindo e interpretando os “sinais dos
tempos”, isto é, captando as incidências entre o Evangelho e a vida concreta
dos homens, em cada momento e em cada tempo. O Congresso Internacional para a
Nova Evangelização, procura essa síntese: anunciar a
verdade perene, o Evangelho de Jesus Cristo, não de forma abstracta, mas como
mensagem dirigida a homens concretos, num tempo concreto. Isso exige dos
evangelizadores uma dupla experiência: de contacto profundo com Jesus Cristo
vivo e com a Sua Palavra e de empenhamento generoso na vida dos homens. É uma
dupla paixão, que é afinal a mesma, porque a paixão de Jesus Cristo é o
homem. Quanto mais o conhecemos e amamos, mais nos sentimos enviados por Ele
para o amor dos homens. Esta dupla experiência tem
de constituir a atitude permanente duma Igreja que se assume como enviada e
há-de aprofundar-se no Congresso, constituindo a sua principal consequência,
a exigir continuidade e radicalidade. 10. Um estudo recente, referido na imprensa diária, situava a Polónia e
Portugal como os países da União Europeia onde a fé religiosa, concretamente
a fé em Deus, tem uma maior expressão. Isso leva-nos a tentar enunciar, ainda
que de forma resumida e genérica, as principais atitudes que definem a
população de Lisboa do ponto de vista da fé religiosa. Os chamados católicos praticantes, aqueles que, por fé esclarecida ou
simples tradição religiosa, se reúnem ao domingo para celebrar a Eucaristia.
Esta é, desde os primeiros séculos, a afirmação principal da pertença à
Igreja e da fé em Cristo ressuscitado. Aliás a Igreja reúne-se ao domingo
(Dies Domini), porque é o dia em que Cristo ressuscitou dos mortos. Toda a
evangelização deve conduzir a esta valorização do domingo, dia em que a
Igreja se reconhece e se assume como comunidade pascal. Quando os baptizados
não fazem, espontaneamente, da reunião dominical a principal expressão da sua
fé e da sua identidade cristã, ainda não assumiram um verdadeiro sentido de
pertença à Igreja. A valorização da liturgia dominical, em profundidade e
beleza, torna-se elemento decisivo para o crescimento da fé das comunidades. Na Diocese de Lisboa, aqueles que se reúnem ao domingo são cerca de 12% da
população total, quando os contamos num domingo em concreto. Quando
interrogamos amostragens da população, com o método da sondagem, sobe a
percentagem dos que se declaram “praticantes”, o que revela uma atitude que
se vai acentuando: muitos cristãos, mesmo indo habitualmente à missa
dominical, não vão todos os domingos, sem deixarem por isso, de se considerar
praticantes. Esta atitude denuncia a relativização progressiva do “preceito”
da obrigatoriedade da missa dominical. Este dado não pode ser descurado na pastoral
evangelizadora, pois toda ela deve levar os cristãos baptizados a assumirem a
sua pertença à Igreja e a reconhecer na Eucaristia dominical a sua principal
expressão. Em todo o caso, é preciso reconhecer que as assembleias dominicais
são a principal expressão da visibilidade da Igreja na cidade e o ponto de
partida para a irradiação da missão. Os baptizados “não praticantes”. É um grupo significativo da nossa
população. É um fenómeno que se deve a vários factores: o hábito, ainda
generalizado, de pedir o baptismo para as crianças; a fragilização
progressiva da família como primeira comunidade transmissora da fé; uma
catequese de infância, onde incidem todas as dificuldades sociológicas da
família, mais concebida como aprendizagem de uma doutrina e não tanto como
processo de iniciação à vida cristã e que se revelou, muitas vezes, incapaz
de fidelizar, num sentido de pertença à Igreja; a evolução do sentido do
dever da prática religiosa, que desliza das condicionantes culturais e
sociais, para uma opção pessoal, consciente e livre; o ambiente cultural
envolvente, marcado pelo naturalismo. A catequese tem de se afirmar como
caminhada de iniciação catecumenal e a administração dos sacramentos que
ainda solicitam à Igreja tem de se enquadrar numa proposta de evangelização.
A Igreja não nega sacramentos, mas tem o direito e o dever de ajudar a criar as
atitudes de fé que permitam recebê-los com fruto. Os ateus e os agnósticos. Não é fácil quantificar este grupo. Enquanto o
ateísmo é, normalmente, uma atitude fundamentada racionalmente, o
agnosticismo apresenta-se como um não tomar posição perante Deus e a
religião. Os seus fundamentos racionais são, por vezes, tão frágeis como os
do simples abandono da prática religiosa. Tem frequentemente a ver com a
afirmação da laicidade, característica política do Estado moderno,
transformada em “religião laica”, que se estende, abusivamente, à sociedade
como um todo, qual filosofia inspiradora de valores e comportamentos. A Igreja mantém com este grupo de cidadãos, muitos deles
baptizados, uma atitude respeitadora e de abertura ao diálogo, porque muitos
deles, sobretudo os agentes culturais, mantêm atitudes convergentes com a
acção da Igreja. Essa abertura ao diálogo é o contexto em que se podem
detectar aberturas à mensagem evangélica, mas não pode impedir a Igreja de
proclamar, na sociedade, os valores e perspectivas que brotam da fé cristã,
sobretudo no que diz respeito à dignidade da vida e da pessoa humana e à
harmonia da sociedade, baseada na verdade, na justiça e na construção da
fraternidade e da paz. Os outros grupos religiosos. A maior parte reportam-se ao cristianismo,
quer sob a forma de Igrejas organizadas, quer em tradições mais diáfanas e
doutrinalmente menos estruturadas. A atitude ecuménica é hoje componente
constitutiva de toda a pastoral da Igreja. A diocese de Lisboa quer
praticá-la em comunhão com as orientações do Santo Padre para toda a Igreja
Universal. Além destas comunidades crentes que se reportam ao cristianismo, estão
implantadas, na cidade de Lisboa, comunidades significativas de outras
religiões, tais como o judaísmo, o islamismo, o hinduísmo e mesmo o budismo.
O respeito mútuo, ponto de partida para um sadio diálogo inter-religioso,
deve ser a nossa atitude fundamental, que não exclui colaboração
inter-religiosa em projectos concretos, sobretudo de incidência social. Mas
devemos estar vigilantes para que esta atitude de diálogo não caía num sincretismo religioso, em que todas as religiões
são iguais. A fidelidade à nossa especificidade católica é a base segura para
todo o diálogo ecuménico e inter-religioso. 11. Um dos factores que a evangelização tem de ter em conta é a deterioração
progressiva da identidade cristã e da especificidade da vida da graça,
assumida como caminho de santidade, e que se verifica mesmo entre o grupo dos
cristãos praticantes. As principais manifestações desta tendência são a
separação entre a vida da fé e a atitude moral que inspira o exercício da
liberdade nos comportamentos habituais, esquecendo que a fidelidade cristã se
exprime também nas “obras da fé”, agindo segundo a exigência do Evangelho,
conduzidos pelo Espírito Santo; a pobreza da vida de oração vista apenas como
intercessão, nos momentos de aflição, e não como expressão de uma intimidade
de vida e de amor com Deus. Este fenómeno encontra as suas causas, não apenas na fraqueza pessoal, mas no
ambiente cultural envolvente, cada vez menos condizente com a qualidade da
vida cristã e que influencia também as atitudes e comportamentos dos
cristãos, o que sublinha a importância da evangelização, não apenas das pessoas,
mas também da cultura. 12. O nosso tempo é positivamente marcado por uma valorização da natureza.
Denunciam-se os abusos destruidores dos interesses e das concretizações do
que se considera progresso e cultiva-se o respeito pela natureza, de que as
pessoas aprendem a fruir. Esse culto da natureza gera o naturalismo na
interpretação do sentido moral da existência, segundo o princípio de que tudo
o que é natural é bom. Esta atitude esquece, no entanto, dados decisivos para
uma existência de qualidade, segundo o desígnio criador de Deus. Antes de
mais, não é coerente, pois não respeita a verdade da natureza em aspectos
essenciais da dignidade humana, como são o respeito pela vida desde a sua
concepção, os egoísmos desenfreados nas relações humanas, a prioridade dada à
construção da harmonia e da paz, a defesa da família concebida como
compromisso amoroso e fecundo entre o homem e a mulher, a própria abertura do
coração humano à transcendência de Deus, também essa natural. Mesmo na reflexão teológica, a harmonia entre a natureza e a graça não é
fácil de conseguir. A experiência dolorosa do pecado que enfraqueceu o
dinamismo positivo da natureza, levou muitas vezes a menosprezá-la,
valorizando apenas a força redentora de Cristo como fonte da verdade e da
harmonia. Numa cultura de super-valorização da natureza, é urgente retomar na
evangelização a busca desta harmonia. O fruto da redenção que se exerce em
nós através da acção do Espírito Santo, é levar o homem a viver em plenitude todas as potencialidade de amor, de verdade e de beleza
contidas na criação. O que é natural só será plenamente bom se for vivido com
a força da graça sobrenatural. Na verdade da existência cristã não pode haver
lugar, nem para naturalismos simplistas, nem para visões desencarnadas da
perfeição humana. 13. O já referido estudo, noticiado na imprensa diária, acrescentava outro
dado: uma percentagem elevada dos que declararam acreditar em Deus, admitiam
não acreditar na vida para além da morte, ou seja, excluem a esperança na
vida eterna. Além de ser um contra-senso, pois não se percebe como é possível
acreditar em Deus e excluir a vida eterna, altera o essencial da fé cristã
que tem a sua fonte de verdade e de sentido na ressurreição de Cristo, em
cuja plenitude de vida participamos desde já, na esperança de ressuscitarmos
com Ele e por Ele sermos introduzidos na plenitude da vida. Essa é uma
expressão de fé que está muito próxima da descrença. Essa atitude altera, profundamente, o sentido da vida presente, reduzida aos
limites deste mundo. A certeza de que a vida eterna começa já neste mundo, na
vida vivida com Cristo, é a fonte da exigência e do sentido da vida e da
morte. A vida eterna não é só o que vem depois da morte, mas é uma densidade
de vida que envolve e dá sentido à própria morte. A vida limitada ao seu
horizonte temporal altera inevitavelmente a maneira de viver a morte, a dos
outros e a nossa. Esta dimensão de eternidade da nossa própria vida, que inaugura, neste mundo,
a dimensão escatológica, tem de fazer parte dos conteúdos de toda a
evangelização. A Eucaristia e a pastoral da morte são momentos propícios para
este anúncio. 14. Uma outra dimensão do ambiente cultural em que vivemos,
é a atitude das pessoas perante a verdade, que influencia a própria atitude
dos cristãos praticantes. A valorização da liberdade individual, desemboca
facilmente no subjectivismo da verdade, em que cada um tem direito a
construir a sua própria verdade. Esta perspectiva põe em questão dimensões
fundamentais da atitude do cristão frente à verdade: relativiza a origem
transcendente e revelada da Verdade, para nós concretizada na Sagrada
Escritura, sobretudo nos ensinamentos de Jesus, na Tradição e no Magistério
da Igreja, enquanto intérprete autêntico dessa verdade revelada; e, ao
acentuar exclusivamente a dimensão individual da verdade, secundariza a
dimensão comunitária da verdade, constitutiva de uma Tradição. A nossa fé é a
fé da Igreja e é por isso que só a Igreja pode ser Mestra segura da verdade e
da fé, garantia da objectividade da própria verdade. A exigência moral da
vida cristã encontra o seu fundamento nessa dimensão comunitária e revelada
da verdade, e dilui-se sem essa referência à verdade objectiva, cuja
plenitude nos foi manifestada em Jesus Cristo, Ele que nos disse claramente:
Eu sou a verdade. 15. O Concílio Vaticano II convidou-nos a identificar, na realidade complexa
do mundo, em cada tempo histórico, sinais de esperança, lendo os “sinais dos
tempos”. Aí é dito que a Igreja, para cumprir a sua missão no mundo, “tem o
dever de, em cada momento, perscrutar os sinais dos tempos e de os
interpretar à luz do Evangelho, para poder responder, de maneira adaptada a
cada geração, às questões eternas da vida dos homens sobre o sentido da vida
presente e futura e suas relações recíprocas” . Nesta sociedade a que a Igreja quer anunciar a esperança, é possível
encontrar, na sua realidade complexa, sinais da acção do Espírito, sementes
de verdade abertas à manifestação plena da verdade de Deus para o homem. A descoberta da solidariedade: apesar do acentuar de egoísmos pessoais e grupais que minam a sociedade, é notória a descoberta da solidariedade,
enquanto expressão de ajuda mútua e de serviço dos outros. E é
particularmente significativo que sejam os jovens os mais sensíveis a essa
atitude. À luz do Evangelho e da exigência do amor fraterno, os cristãos
estão na primeira linha desse serviço dos irmãos, pessoalmente e através das
instituições da Igreja. Mas a evangelização deve levá-los a descobrir, cada
vez mais, nessa solidariedade, a beleza da caridade, que acontece sempre que
o amor dos irmãos é uma expressão do próprio amor de Deus. A redescoberta do dinamismo missionário: também aqui são sobretudo os
jovens que têm a ousadia de inventar novas formas de partir em missão. Muitos
fazem experiências de algum tempo o que leva sempre alguns a decidir
consagrar toda a sua vida ao serviço da missão. Hoje são muitos os cristãos leigos
que partem em missão: famílias, profissionais de várias áreas, pessoas
enquadradas em movimentos. Este fenómeno é, em si mesmo, sinal da vitalidade
da Igreja, que procura caminhos novos para a missão de sempre. A vocação
missionária é constitutiva do ser da Igreja. A inquietação da radicalidade. Embora o panorama aparente da sociedade seja
de facilitismo, atitude de quem busca e se contenta com uma felicidade
momentânea, desfrutando avidamente de quanto a vida pode oferecer de
imediato, nota-se em muitos a inquietação da profundidade e da radicalidade.
Trata-se de uma espécie de insatisfação cultural que pode ser abertura à
descoberta da autêntica radicalidade cristã. 16. Este Congresso acentuará a dimensão querigmática da nossa pastoral
evangelizadora, ou seja, ensinar-nos-á a anunciar, de forma simples, directa
e interpelante, as verdades decisivas da fé cristã, as únicas que podem mudar
as vidas e converter os corações. 17. Deus é um problema crucial para o homem de todos os tempos. Ele é um
mistério, não no sentido de um enigma a decifrar, mas como realidade profunda
no coração do homem, que este é convidado a descobrir, encontrando-se no mais
profundo de si mesmo. O homem confronta-se, na busca da sua verdade, com
problemas e com mistérios. Os problemas podem situar-se nas realidades
exteriores ao homem, que ele procura esclarecer e, porventura, resolver, com
a sua inteligência racional. O mistério situa-se no interior do homem e este
só o pode iluminar mergulhando na sua própria profundidade. Quando o homem
limita a sua própria busca da verdade ao nível mais superficial das
aparências, corre o risco de marginalizar Deus, mesmo que continue a dizer
que acredita n’Ele. Queixamo-nos frequentemente de que Deus se esconde, é obscuro, não Se
manifesta e no fundo somos nós que nos recusamos a mergulhar no mais profundo
de nós mesmos. Aqueles que aceitam fazê-lo, conduzidos pelo Espírito, acabam
por tocar a simplicidade e a luminosidade de Deus, que se nos revela com
aquela proximidade íntima que só o amor torna possível. No anúncio
querigmático de Deus, não basta falar de Deus, discutir sobre Deus; é
essencial testemunhar aqueles momentos mais autênticos da nossa vida em que
Deus se manifestou como luz. Escutar, sem desfalecer, a Sua Palavra, teimar
humildemente na experiência da oração, porque são caminhos que nos conduzem
ao mais fundo de nós mesmos, são, por isso mesmo, caminhos para experimentar
o Deus Vivo. É dessa densidade e profundidade de experiência de Deus que
Jesus Cristo é, para nós, a Testemunha, Ele que conhece Deus na intimidade do
amor filial. Jesus Cristo é o Vivo porque entre a Sua vida e a vida de Deus
há identificação que só o amor gera. 18. É por isso que Cristo Vivo para sempre, porque venceu a morte e nos
comunica a vida, ajudando-nos a vencer a nossa própria morte, é o anúncio
primordial dos cristãos. Toda a mensagem de Jesus, o “Evangelho do Reino”, é
um convite à profundidade. “Mudai o vosso coração”, eis o desafio que resume
a Sua mensagem, que é desafio e proposta, na certeza da Sua experiência, de
que Deus é o mais íntimo do homem. Esse é o itinerário que Cristo nos convida
a percorrer com Ele, da superficialidade à profundidade, de um coração
dividido a um coração novo, de um Deus desconhecido a uma experiência viva do
Deus Vivo. O Senhor sabe que esse regresso à verdade profunda de nós mesmos
pode supor o sofrimento purificador, caminho que Ele percorreu até à
radicalidade, na certeza de que só Ele nos pode conduzir nesse acto recriador
do regresso à profundidade de nós mesmos. Ele revela, sem explicar, a relação
existente entre sofrimento e nova criação. A quantos se sentem atraídos por Ele, o Senhor lança sempre o mesmo desafio:
vinde comigo, segui-Me. Verdadeiramente não nos convida para lado nenhum,
porque Ele próprio não tem onde reclinar a cabeça. O itinerário que nos
propõe, seguindo-O, é o regresso à profundidade de um coração recriado, é ir
ao encontro do Deus Vivo. É por isso que acrescenta: quem quiser vir comigo,
tome a sua cruz e siga-Me. O regresso a Deus é sempre um acto de coragem
radical e generosa. Cristo ressuscitado está vivo, na Sua Igreja; só isso torna possível que
continue, em todos os tempos, a convidar-nos a percorrer, com Ele, esse
caminho de regresso, que é descoberta da mais profunda verdade de nós mesmos.
E não nos convida, apenas, a ir atrás d’Ele. Porque nos comunica a Sua vida,
atrai-nos para percorrer, com Ele, à maneira d’Ele, esse caminho da vida.
Essa participação na vida do Senhor ressuscitado é a irrupção, no presente da
nossa vida, da plenitude escatológica que nos é prometida. Só Ele é a
garantia de a alcançarmos. Este anúncio de Cristo Vivo como caminho para a vida só pode ser feito por
quem já encetou esse caminho, seguindo-O como Mestre e Senhor. O próprio
facto de o testemunhar, compromete-nos mais com essa
opção de fazer da nossa vida um caminho com Cristo. É um testemunho que
inclui, necessariamente, a experiência da Eucaristia como celebração contínua
da Páscoa, momento verdadeiramente decisivo desse caminho de vida. 19. Sempre, mas de modo mais claro no nosso tempo, o anúncio de Jesus Cristo
tem de incluir uma afirmação clara de uma maneira de viver, da “vida nova” em
que Ele nos introduziu. Sem isso, a opção cristã é estéril, incapaz de
transformar positivamente o homem e a sociedade. Seguir Jesus Cristo toca, de
forma exigente e transformadora, em todas as principais expressões da vida do
homem enquanto ser espiritual e livre. São as grandes questões do coração
humano, de que fala o Concílio: o sentido da vida e da morte, a relação entre
a vida presente e a eternidade, a exigência da verdade e do amor, o modelo de
felicidade que se procura, uma maneira de estar no mundo e o compromisso
sério pela edificação de uma civilização do amor. O cristão não pode esconder
que Jesus Cristo é fonte de exigência ética e deve proclamá-lo e
testemunhá-lo na prática das suas escolhas e comportamentos. É preciso não
esquecer que a santidade se exprime na vida, na carne e no sangue das nossas
opções e dos nossos ideais, e que a separação da fé e da vida é a maior
fragilidade da Igreja. Este é, certamente, o aspecto mais exigente do anúncio cristão, pois supõe a
coragem de ser diferente e, de certo modo, “lutar contra a corrente” das
maneiras de ver a vida, aceites pela sociedade contemporânea. Só é possível
travar esta luta com a força de Deus e a firmeza inabalável da fé. 20. Essa foi a experiência surpreendente do Pentecostes: na diversidade das
linguagens, todos captaram a mesma mensagem. Este testemunho simples e
interpelante da sua fé, os cristãos podem exprimi-lo em diversas linguagens:
na simples coerência de vida com que procuram ser fiéis à verdade em todas as
circunstâncias; na explicitação dialogal, pessoa a pessoa, quando as
circunstâncias o tornam possível; no silêncio da sua oração confiante e,
porventura sofrida; identificando-se com a linguagem da Igreja, quando
celebra o mistério ou quando se assume como Mestra da fé; na busca racional
da inteligibilidade ou na expressão artística da beleza; no serviço generoso
dos irmãos, sobretudo dos que mais precisam. Devemos estar atentos e aprender a escutar as linguagens, aparentemente
profanas, de todos os que connosco convivem na cidade, pois também elas podem
exprimir a busca da verdade e da beleza. O conjunto de todas essas linguagens
constitui o fenómeno da cultura, verdadeiro quadro da expressão de todas as
buscas e de todos os anseios. A Igreja em si mesma, na variedade das suas expressões, enquadra-se nesse
quadro mais vasto e plural da cultura, que hoje já não se define por uma
referência religiosa, o que não significa que a exclua ou a negue. A Igreja,
na sua missão evangelizadora, deve valorizar esta presença do mundo da
cultura, no seio da própria mutação cultural, pois esse é talvez o único
contexto em que muitos contemporâneos nossos podem escutar a mensagem da
Igreja e em que os próprios cristãos aprendem a escutar outras linguagens. 21. O Congresso foi longamente preparado e estão criadas as condições para
que aconteça com qualidade. Desde o início ele tem um objectivo claramente
assumido: levar as Igrejas que estão nas cinco cidades europeias em que se
realiza, a encontrarem caminhos novos de evangelização, no contexto cultural
do homem europeu contemporâneo. Assumindo-se como uma proposta de diálogo com
a cidade, em que a Igreja explicita a esperança que a anima e o seu modo
próprio de estar na cidade, ele é, antes de mais, interpelação às comunidades
cristãs para aprofundarem a sua fé, único ponto de partida válido para o
dinamismo evangelizador. E esse poderá ser o seu fruto mais precioso: levar
os cristãos e as comunidades a assumirem que a evangelização é simples e
urgente. Se a nossa fé é um dom precioso e Jesus Cristo, o nosso tesouro, não
podemos deixar de os anunciar para os partilhar. Durante o Congresso haverá uma “missão na cidade”. Ela deve afirmar-se como
um momento forte de uma atitude permanente dos cristãos na cidade: serem
coerentes com a sua fé e darem testemunho dela
sempre que as circunstâncias o tornem possível. Isso significa coerência
consigo próprio, tolerância para aceitar a diferença, discernimento para
perceber o momento e o modo de compromisso com o bem da comunidade. A sua dimensão europeia ajudar-nos-á a perceber melhor, não só a exigência da
construção de uma verdadeira comunidade em plano europeu, mas a
universalidade da Igreja, onde brilha a luz da unidade da fé e da verdade.
Acolheremos os nossos irmãos vindos de Viena, de Paris, de Bruxelas e de
Budapeste e com eles partilharemos a unidade da mesma fé e o entusiasmo por
um processo de nova evangelização para a Europa. Na sua relação com os povos
da Europa, a Igreja já provou, ao longo dos séculos, que, em termos de
evangelização, é possível começar sempre de novo. Em comum com estas Igrejas
irmãs, aprenderemos a amar esta Europa, de que hoje se fala quase só na
vertente económica e política. Peço a todos que intensifiquem a sua oração, pois dela depende a fecundidade
misteriosa desta iniciativa. A experiência dos “missionários da oração”, em
curso desde o anúncio do Congresso, deve alargar-se a todos os cristãos do
Patriarcado. O Congresso foi colocado sob a protecção de Santa Teresinha do
Menino Jesus, Padroeira das Missões, cujas relíquias serão veneradas na nossa
Catedral durante toda a semana do Congresso. Mas contamos, particularmente,
com a protecção de Nossa Senhora que, na sua imagem da Capelinha das
Aparições, estará connosco durante o Congresso. Confiemos-lhe, desde já, não
apenas a sua realização, mas os frutos fecundos que dele poderão brotar para
a Igreja de Lisboa. |